De paz e dor
De luz e suor
De alegria em flor
De surpresa e amor
Momentos clamantes
Simplesmente momentos
Nosso lugar-comum
Antítese do nada
Lembranças marcadas
Sim, desta longa estrada,
Em que amar se faz melhor
Nem sempre à semelhança da perfeição
Somente, por momentos.
José Roberto Abib
TÃO POUCO
Tão pouco este encanto viveu
durou a eternidade da vida
de uma flor, de uma rosa
perfumada rosa azul
envaidecida.
Tão pouco este encanto durou
viveu o tempo de uma flor
colhida a esmo
ornando uma lapela
jogada fora tão singela
Durou o tempo exato
viveu por uma noite, brilhou na escuridão
e quando veio a luz da madrugada
o orvalho jogou pétalas no chão
e o amor fugiu frente à razão.
Quisera...
Ter-te em meus braços
Vestir-te em afagos
No calor de meus abraços.
Quisera...
Acalentar os teus sonhos
Realizar teus desejos
Na leveza de um toque
Na doçura de meus beijos.
Quisera...
Ser teu amor, tua amada
Acordar-te na calada
Despir-te de inocência
E te amar na madrugada.
Quisera...
Como quisera...
Ser por ti,
Mais desejada
Nadya Haua
SAUDADE Edna Liany Carreon Saudade, palavra incompreendida. Pela dor enorme de uma partida. Onde dois corações sofrem; Uma grande dor incontida. Saudade que vai machucando, A cada dia que vai passando. O coração que vai se apertando E a saudade que vai aos poucos, Nos matando... Saudade é uma palavra triste, Que nos traz grandes lembranças. De coisas boas e felizes E nos traz também a esperança. De um dia comemorar... O reencontro de dois corações. Que ficaram tristes a chorar... E que um dia voltarão a se encontrar! Edna Liany Carreon

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
José Régio
Atravessei o jardim solitário e sem lua,
Correndo ao vento pelos caminhos fora,
Para tentar como outrora
Unir a minha alma à tua,
Ó grande noite solitária e sonhadora.
Entre os canteiros cercados de buxo,
Sorri à sombra tremendo de medo.
De joelhos na terra abri o repuxo,
E os meus gestos dessa encantação,
Que devia acordar do seu inquieto sono
A terra negra canteiros
E os meus sonhos sepultados
Vivos e inteiros.
Mas sob o peso dos narcisos floridos
Calou-se a terra,
E sob o peso dos frutos ressequidos
Do presente,
Calaram-se os meus sonhos perdidos.
Entre os canteiros cercados de buxo,
Enquanto subia e caía a água do repuxo,
Murmurei as palavras em que outrora
Para mim sempre existia
O gesto dum impulso.
Palavras que eu despi da sua literatura,
Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
De fórmulas de magia.
Docemente a sonhar entra a folhagem
A noite solitária e pura
Continuou distante e inatingível
Sem me deixar penetrar no seu segredo
E eu senti quebrar-se, cair desfeita,
A minha ânsia carregada de impossível,
Contra a sua harmonia perfeita.
Tomei nas minhas mãos a sombra escura
E embalei o silêncio nos meus ombros.
Tudo em minha volta estava vivo
Mas nada pôde acordar dos seus escombros
O meu grande êxtase perdido.
Só o vento passou e quente
E à sua volta todo o jardim cantou
E a água do tanque tremendo
Se maravilhou
Em círculos, longamente.
Sophia de Mello Breyner Andresen, “Cem poemas de Sophia”
Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,
Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afuguentou as larvas tumulares…
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno…
Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções…
Mas de guerra… e são vozes de rebate!
Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!
Antero de Quental
Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade
Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?
Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.
Almada Negreiros
O Demônio, no meu desterro,
Esta manhã veio me ver
E para pegar-me em erro
Disse-me: "Queria saber
"De todas as coisas gostosas
Que nela merecem louvor,
Entre as partes negras ou rosas
Do seu corpo encantador,
"Qual é a mais doce." -- Ó alma!
Respondeste ao Abominado:
"Tudo n'Ela merece a palma,
Nada pode ser destacado.
"Como pode quem tudo adora
O que mais seduz escolher?
Ela deslumbra como a Aurora
E como a Noite traz prazer;
"E é por demais excelente
Do belo corpo a harmonia
Para que a razão impotente
Anote cada sinfonia.
"Sobre-humana alquimia
Que todos os sentidos une!
N'Ela o sopro é melodia,
D'Ela a voz faz o perfume!"
Tout entière
Le Démon, dans ma chambre haute,
Ce matin est venu me voir,
Et, tâchant à me prendre en faute,
Me dit: "Je voudrais bien savoir,
"Parmi toutes les belles choses
Dont est fait son enchantement,
Parmi les objets noirs ou roses
Qui composent son corps charmant,
"Quel est le plus doux." -- Ô mon âme!
Tu répondis à l'Abhorré:
"Puisqu'en Elle tout est dictame,
Rien ne peut être préféré.
"Lorsque tout me ravit, j'ignore
Si quelque chose me séduit.
Elle éblouit comme l'Aurore
Et console comme la Nuit;
"Et l'harmonie est trop exquise,
Qui gouverne tout son beau corps,
Pour que l'impuissante analyse
En note les nombreux accords.
"O métamorphose mystique
De tous mes sens fondus en un!
Son haleine fait la musique,
Comme sa voix fait le parfum!"
Poema Baudelaire, tradução Pontual
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